MINAS GERAIS!

 

 

            Hoje eu estava lembrando a tragédia de Mariana em Minas Gerais. Isso  porque, há dias atrás, vi a notícia de que um juiz mineiro anulou o processo contra os diretores da Samarco, da Vale e da BHP, por achar improcedente a acusação devido a gravações sem autorização judicial.

            Não importa qual o motivo, o que me causa estranheza é que a decisão partiu de um juiz de Minas Gerais.

            Acontece que acabo de ver um programa da TV Cultura de São Paulo que fez uma abordagem até poética sobre o Rio Doce, mostrando como está a vida de moradores da região e de índios que sobrevivem da pesca. Um índio, ou caboclo, contava com tristeza que quando ele era criança, o pai o levava ao rio para pescar, para tomar banho, atividades essas que cessaram há dois anos.

            Logo depois, começou outro programa chamado Caminhos e Parcerias onde a jornalista Neide Duarte fez uma das mais belas reportagens que já vi, sobre catadores de papel de Belo Horizonte. Confesso que fiquei impressionado com esses trabalhadores a quem sempre julguei por atrapalharem o trânsito de uma cidade como São Paulo. Quando acontece de ficar atrás de um desses carregadores, puxando suas carroças, ficava nervoso dentro do conforto de meu carro e buzinava por não conseguir ultrapassá-los.

Hoje, no entanto, vi mulheres que saem à cata de papel durante a noite pelas ruas de Belo Horizonte e voltam para os lugares onde descansam onde nem sempre é uma casa, depois de puxarem suas carroças com 700 quilos ou até uma tonelada de papel. É preciso força para isso. Não dormem durante o dia, pois separam o produto de sua coleta para revender a quem fará a reciclagem. Vi uma mulher, moça ainda, dizer que após a venda de sua carga recebera cerca de vinte reais.

Creio ter sido a prefeitura da cidade que criou a Associação dos Catadores de Papel de Belo Horizonte e com isso a vida de muitos catadores melhorou. Uma mulher, de nome Geralda, hoje é coordenadora dessa Associação e durante muito tempo catou papel junto com nove filhos e agora conseguiu colocar todos eles na escola. Ela mesma está aprendendo a ler e escrever, coisa inimaginável tempos atrás.

            Outra mulher, perguntada sobre quanto tempo viveu nas ruas, respondeu que faz apenas dois anos que deixou as ruas e hoje conseguiu à custa de muito esforço morar em uma casa.

            Duas reportagens sobre Minas Gerais, uma que me entristeceu pelo descaso das autoridades com o que uma empresa fez com Mariana, empresa essa que continua jogando dejetos no Rio Doce. Mas a outra reportagem, apesar da situação de vida quase miserável dos entrevistados, encheu-me de alegria por ver um povo trabalhador cujos sonhos são ter sonhos como outras pessoas e suas crianças têm sonhos ainda menores por que catar papel é o universo que elas conhecem.

 

Ivan Jubert Guimarães

 

09/08/2017

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